30.11.09

.







.

30.10.09

.




Prevalência.


primeiro movimento: o interior
da sala, o nervosismo de não compreender
o piano, o
corpo mastodôntico do
piano - de fraque - ,
como um totem rijo no flanco
esquerdo,
próximo a um vaso vazio.

segundo movimento: os pneus do carro
triturando cascalho da
estrada, faróis míopes escuro
adentro,
limpador de pára-brisa
autisticamente
tentando ser útil, gravetos
entram nas rodas
partem-se
estalam, como
aplausos de esqueleto.

---

Longe, em vídeo.

rosto-ornamento de geada e
músculos bem relaxados.
agasalho, chaves, lanterna
incendiando porções ovais
de asfalto –
a rua por si só aventando
as léguas do ônibus,
o jeito de dizer desço
aqui, o modo dela
levantar da poltrona
com vincos de
cicatriz de vinil e estofado.
o caminho mais curto
para a tolice seguinte a dizer,
enquanto ela já
é a próxima fotografia
e o vestido
desliza pela pele alva de
esquimó; choveu durante um mês
nos últimos minutos em
que mantive o livro fechado. e
quando, dentre outras
sutilezas
meu ombro quase partiu-se
sob o impacto com
a poltrona à sua frente
como o deslumbre por
uma cratera vulcânica
em tons branco-azuis
sutilíssimos
revelando ao lado
dos caninos a brecha
retangular de um
azulejo


(Dois poemas do livro Temas para Desfibrilador, inédito)




.

21.8.09

.



trecho de composição transatlântica


daquele lado, em que por pilhagem
de minuto e segundo isso
que chamamos tempo faz haver um navio.
o sol nascer em dez
partes diferentes, cada irá queimar
outra íris-espelho, o embaço do vidro
resfriando a certeza de haver lugar onde
toda ilha-si morre, onde os pastos
esvaziam animais médios, onde da
embarcação -- o tempo agora é mero gráfico --
a passarela é estreita, o retorno é
manco

(RM)


BBC

Os olhos verde-água disparados no rosto aborígene ou árabe ou indiano ou brasileiro ou turco ou marroquino ou egipcio em cenários de adobe e pedra, mosteiros suspensos, mercados flutuantes, bandeiras sem fim, ruínas soberbas, cenografia de confins, os olhos verdes água disparados na pele obscura do século nada contam, wall papers, rapid share, finísssimas e em nada embaçadas lâminas de cristal; em suspensão familiar recortes de recortes de guardanapos, das mais prontas mercadorias, das mais doces situações, das mais funny, das mais delicious, das mais.

(JL)



morrer.

depois de fixa a linha com
que o mesmo par transparente
de olhos redutores prepara a cisão
da pele. índice escrevível
além, com o registro fotográfico
das passantes. tatear dentro do
porta-luvas pelos óculos, sem
não. outros olhos-elixir.
passos atrás do mar ou da linha que
dele se vê, ou se verá horizonte
afônico, outro, dentro de mais
um soluço ou gesto ou? tarde aurora
insone.

(RM)


Primeiro

fosse bastante aproximar

ainda a tempo de ver o olhinho de sangue

rompendo da tua face

gelatina, fios suaves como nunca tocados

e já não eras tu – a salmoura, os lençóis com que foste
...................................................... [ embrulhado também

eras tu

e éramos nós dois

quietos sob um panóptico burocrático

sobre um cais de formol

limpando e acomodando teu corpo

travado,

esponjado,

na última barca

(JL)

...

Quatro poemas do livro inédito Empate (2008), escrito com o amigo Júlio Lira.



.

20.8.09

.



Coração

Está muito cheio aqui e o barco não sabe pra onde está
...........................................................................[ indo.
Você está tendo um ataque cardíaco no meu colo.
Não importa se é um ataque cardíaco de verdade.

(Emily Kendall Frey)

---

Heart

It’s very crowded and the boat doesn’t know where it’s
...........................................................................[ going.
You are having a heart attack in my lap.
It doesn’t matter if it’s a real heart attack.





.

18.8.09

.



O Trem Sonha Estar Voando

na imagem contra a qual disputa: o rio. Mas
o rio pode mover-se mais rápido e com
mais fluidez. É desejo de ambos serem
o mais escuro, o mais negro. Não importa
quanto tente o trem não se lança
da água congelada. O cenário se abre
ao meio e uma árvore surge como silhueta,
momentaneamente dividindo as máquinas—
trem e rio. O trem prossegue até sumir
no vasto branco. Eis o que é, o que
a velocidade é. Esboço. Galho que se parte.


(Emily Kendall Frey)

---

The Train Dreams It Is Flying

into its competing image: the river. But
the river can move faster and with more
fluidity than it. Both wish to be the most
dark, the blackest. No matter how hard it tries
the train cannot propel itself away
from the frozen water. The scenery snaps
in half and a tree rises up as silhouette,
briefly dividing the machines—
train and river. The train rushes headlong
into whiteness. So this is it,
what speed is. An outline. A broken branch.




.